Nova molécula pode ser uma alternativa mais eficaz no tratamento da leucemia em adultos e idosos

Por Larissa Albuquerque

Conduzido por pesquisadores do ICB-USP e da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, o estudo foi publicado recentemente no Scientific Reports.

Reversina é o nome de uma molécula, ainda sem utilidade clínica, que pode ser uma opção mais eficaz para tratar tumores como a neoplasia mieloproliferativa, um tipo de leucemia que é mais comum em pessoas entre 50 e 70 anos. Pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) testaram a molécula em modelos in vitro e descobriram que o tratamento com essa molécula é capaz de frear o crescimento da célula tumoral e levá-la à morte.

A pesquisa, feitam colaboração com a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, foi publicada no jornal científico Scientific Reports do grupo Nature Research, em julho desse ano. De um total de 84 marcadores tumorais, chamaram a atenção dos pesquisadores duas proteínas: Aurora-quinase A (AURKA) e Aurora-quinase B (AURKB), bem conhecidas por auxiliar na proliferação das células tumorais. Em vez de inibir a proteína JAK2, cuja mutação ativa essas duas proteínas, eles resolveram inibir diretamente as Aurora quinases utilizando a reversina.

“As células responderam muito bem à reversina. Dependendo da dose, foi possível reduzir o tumor in vitro de forma significativa e levar as células tumorais à apoptose [morte]”. Isso ocorre porque a inibição das proteínas impede que as células se proliferem, entrando na chamada “catástrofe mitótica”, explica o coordenador do estudo, o professor João Agostinho Machado Neto, do Departamento de farmacologia do ICB-USP.

Segundo ele, outros inibidores de proteínas quinases, que já estão em testes clínicos, inibem somente a AURKA ou a AURKB – o diferencial da reversina é a capacidade de inibir ambas.

A leucemia, segundo Machado, é um dos canceres mais difíceis de se tratar. A maioria das terapias consiste no ataque a células, tanto tumorais quanto normais, o que pode gerar efeitos colaterais e desgastar os pacientes, principalmente os mais velhos. Em crianças, que geralmente conseguem suportar um tratamento mais intensivo, a cura é obtida em 90% dos casos. Já em adultos e idosos, que não possuem tanta resistência, apenas 20 a 40% conseguem sobreviver a doença após cinco anos do diagnóstico.  “A reversina pode ser uma alternativa para pessoas nessa faixa etária. Eles são os que menos respondem ao tratamento atual e têm chances de responderem melhor com esse fármaco”, afirma o pesquisador.

Com o sucesso dos testes em modelos in vitro, o próximo passo será os testes em animais. O objetivo é identificar alguma toxicidade no medicamento, e se esse perfil de toxicidade (o quanto ele pode fazer mal às células normais) inviabilizaria o uso da droga. A próxima, e última, etapa é os testes em humanos, que deve ocorrer daqui a alguns anos. A partir do resultado desse processo que o medicamento poderá entrar no mercado.