Possíveis mutações no vírus complicam a proteção ao sarampo em São Paulo  

Por Larissa Albuquerque

O virologista do Instituto de Ciências Biomédicas da USP (ICB-USP), Edison Durigon, explica as consequências do distanciamento genético entre o vírus da vacina contra o sarampo e o vírus do atual surto.

 

O estado de São Paulo está em alerta devido ao surto de sarampo, 90% dos casos da doença no Brasil são da região paulista. Segundo o virologista do ICB-USP, Edison Durigon, a volta do sarampo foi provocada por dois fatores: a mutação genética do vírus ao decorrer do tempo, que possui oito genótipos conhecidos, e a queda da produção de anticorpos. “Esse vírus apresenta vários tipos e subtipos. A vacina que usamos hoje foi feita com o tipo A (o primeiro, captado em 1960). Na epidemia atual o vírus que estamos enfrentando é do tipo D-8, vindo da Venezuela, que está muito distante do da vacina”.

Segundo Durigon, a vacina atual ainda é efetiva contra o novo tipo de vírus, mas não 100%: protege contra a doença, mas o indivíduo ainda pode contrair e transmitir o vírus. O problema é que as vacinas disponíveis no Brasil são importadas, o que dificulta imunizar toda a população. Por isso, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de São Paulo priorizou uma faixa etária para o reforço da vacina. Essa proteção extra é destinada para quem tem de 15 a 29 anos, pessoas consideradas grupo de risco porque estão mais suscetíveis ao vírus. A SMS também baixou para seis meses a idade recomendada para se tomar a primeira dose da tríplice viral, vacina contra rubéola, sarampo e caxumba.

Na verdade, o reforço da vacina sempre foi recomendado. A quantidade de anticorpos depois de aproximadamente 15 anos começa a cair em quem se vacinou, o que torna a proteção insuficiente contra o vírus atual (D8). Pessoas na faixa etária do grupo de risco devem tomar a vacina novamente, mesmo tendo tomado a dupla dose, justamente para reforçar a quantidade de anticorpos. Segundo o virologista, se todos se vacinassem e tomassem o reforço recomendado, esse surto poderia ter sido evitado, mesmo com o vírus sofrendo mutação.

Mas e as pessoas acima de 30 anos, devem tomar? Segundo Durigon, já se admite que a maioria das pessoas nessa idade contraiu o sarampo na infância (uma doença comum antigamente) e por isso desenvolveu anticorpos naturais. Quem já teve sarampo não precisa tomar a vacina novamente. Entretanto, se alguém acima de 30 anos nunca contraiu a doença, deve tomar a vacina.

Pesquisas do ICB – As mutações do vírus ainda estão sendo estudadas. Durigon comanda um dos estudos no ICB-USP. “Estamos fazendo o isolamento do vírus para verificar a variabilidade genética, o genoma de cada vírus de cada paciente. Para analisar o quanto o vírus está sofrendo mutação de uma pessoa para outra”. O objetivo é verificar se os anticorpos do paciente estimulados pela vacina atual o protegem o bastante do vírus D8.

Para conseguir esse vírus eles contam com a colaboração de hospitais como o da Santa Casa e o Albert Einstein. Quando há uma suspeita de sarampo os hospitais enviam materiais (sangue, urina e saliva) dos pacientes para o instituto. A equipe do ICB-USP fornece o diagnóstico rapidamente em troca do acesso ao vírus e aos dados clínicos do paciente.