Políticas públicas têm papel central na formação para o trabalho em um mundo digital

No 7º Diálogo Brasil-Alemanha de Ciência, Pesquisa e Inovação, realizado nos dias 30 e 31 de outubro, em São Paulo, pesquisadores apresentaram diferentes perspectivas de como lidar com o impacto da digitalização sobre o trabalho. Em comum, uma certeza: Estado deve definir uma agenda de prioridades para que a perda de empregos seja a menor possível.

Entre muitas projeções e dúvidas sobre quais serão as áreas mais afetadas com a perda de postos de trabalho ou que tipo de ocupações irão “sobreviver” em um mundo digital, um ponto ficou muito claro nas discussões entre os especialistas que participaram do 7º Diálogo Brasil-Alemanha de Ciência, Pesquisa e Inovação: é preciso preparar os cidadãos para viver e trabalhar em um mundo digitalizado e grande parte dessa incumbência cabe ao Estado, por meio de políticas públicas.

Organizado pelo Centro Alemão de Ciência e Inovação São Paulo (DWIH São Paulo) em conjunto com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) nos dias 30 e 31 de outubro, em São Paulo, o evento reuniu 15 especialistas, do Brasil e da Alemanha, de diversas áreas, com mais de 150 participantes.

Já na abertura do evento o presidente da FAPESP, Marco Antônio Zago, enfatizou que as mudanças globais, resumidas sob a denominação de mundo digital, representam enormes desafios para governos, indústrias, empresas, sistemas educacionais e universidades. E o desafio é multiplicado pelo fato de que as mudanças ocorrem em grande velocidade. “A demanda exige investimentos significativos e um mix de conhecimento, expertise e estratégias, que só podem ser alavancados pela combinação de recursos públicos, universidades e empresas interessadas nas soluções”, afirmou.

Para Martina Schulze, diretora do DWIH São Paulo, é preciso assegurar crescimento econômico, bem-estar social e novas oportunidades de negócios. Schulze citou uma pesquisa divulgada recentemente na Alemanha segundo a qual

30% dos trabalhadores dizem achar que seus empregos serão substituídos por uma máquina nos próximos 30 anos. “Mas quais empregos estão sob ameaça e quais as habilidades necessárias para sobreviver nesse mundo? Temos ouvido falar de profissões inéditas, como Sustainable Manager, Data Miner, Online Reputation Manager, só para citar algumas”, disse.

No entanto, ponderou ela, cinco especialistas presentes no evento afirmam que o potencial de automação do trabalho é exagerado. “Eles explicam que as máquinas poderão assumir certas tarefas em diferentes tipos de trabalho, mas não todas. E que a digitalização está modificando os empregos, e não os substituindo. Eles creem que essa mudança deve ser moldada e propõem algumas ideias sobre como as principais ameaças tecnológicas serão formatadas e como lidar com elas.”

Na opinião do cônsul geral da República Federal da Alemanha em São Paulo, Axel Zeidler, a digitalização é um fenômeno mundial e já impacta sensivelmente o trabalho, a vida diária, o ensino e muitas outras áreas. “A meu ver, uma das questões centrais desse debate muito oportuno é a seguinte: como os indivíduos, as empresas, os governos e outros atores institucionais poderão operar com segurança num mundo digital? Um outro ponto importante é que a sociedade tem de tomar cuidado para não excluir aqueles que não conseguem ou não podem acompanhar essas tendências”, ressaltou.

Ao longo dos dois dias de evento, essas questões foram abordadas sob diferentes perspectivas pelos pesquisadores com a participação da audiência por meio de um app, novidade no Diálogo deste ano que permitiu à plateia interagir com os palestrantes, enviando perguntas e participante de enquetes interativas. A cada final de sessão, uma questão era lançada aos presentes, que podiam votar nas respostas. À primeira delas – sobre quem deveria ser o ator principal na preparação da sociedade para viver e trabalhar na era da digitalização – 53% dos participantes responderam “o governo”; 23% responderam “as empresas” e 13% responderam “outros”.

Muitos desafios pela frente – Um dos keynote speakers do evento, o professor Hartmut Hirsch-Kreinsen, da TU Dortmund, acredita que não haverá perdas dramáticas de postos de trabalho, mas uma mudança nos empregos em

diferentes setores, a longo prazo: uma modificação nas qualificações e habilidades requeridas. “Há dois grandes desafios para a transformação do trabalho: em primeiro lugar, uma divergência numérica entre as perdas de emprego a curto prazo e a criação de novos empregos a longo prazo. Em segundo, uma divergência entre os perfis das habilidades requeridas pelas tarefas substituídas e os perfis de habilidades requeridas pelas tarefas recém-criadas.”

Segundo ele, isso cria uma lacuna considerável entre aqueles que perdem seus empregos e as habilidades que serão necessárias no futuro, levando-se em conta o número de empregos. “Esse gap é uma forte justificativa para medidas intensivas de treinamento e desenvolvimento de competências em todos os níveis de habilidade”, disse Hirsch-Kreinsen.

Nesse sentido, por duas vezes ele ressaltou o papel crucial das políticas públicas, no sentido de endereçar os desafios econômicos e sociais trazidos pelo ambiente da digitalização. “Elas devem incentivar a cooperação interdisciplinar entre empresas, universidades, instituições científicas e políticas, associações, sindicatos e a sociedade civil para promover a indústria 4.0. Têm também o papel de respaldar a transferência da visão da indústria 4.0 para as empresas, às vezes muito resistentes a mudanças em seu modo de operação. E devem ainda estimular a transferência de conhecimento de empresas ‘high-tech’ para as ‘low-tech’ – especialmente para as pequenas e médias empresas.”

Além dessas atribuições, defende o professor, os governos devem iniciar um debate com a sociedade sobre os desafios da indústria 4.0 e cuidar para desbloquear o potencial tecnológico de uma maneira que beneficie a sociedade como um todo.

“Em meu país, o Estado historicamente teve um papel fundamental no estabelecimento de uma agenda de prioridades e de políticas de pesquisa e desenvolvimento. Tanto que lançou a Plataforma Indústria 4.0, que visa identificar as tendências e desenvolvimentos relevantes no setor manufatureiro e combiná-los para produzir um entendimento comum da indústria 4.0”, respondeu Hirsch-Kreinsen, quando perguntado sobre qual o setor que lidera a transição para a digitalização em seu país. Ele é membro do conselho científico da Plataforma

Indústria 4.0. “Entendo que o estabelecimento de uma agenda também deve envolver as empresas e os sindicatos, pois são parceiros e forças influenciadoras.”

Dados discrepantes e preocupantes – Para Glauco Arbix, pesquisador do Observatório da Inovação da Universidade de São Paulo (USP), outro keynote speaker do evento, o fato dessas tecnologias serem muito iniciais, não terem completado ainda seu ciclo de maturação, significa que há muita dificuldade para mensurar o real impacto delas. Ele citou como exemplo previsões para os Estados Unidos de diversas fontes. “Os dados disponíveis são discrepantes, há estudos que preveem a extinção de milhões e milhões de postos de trabalho; outros indicam que a geração de empregos será suficiente para compensar os que foram fechados”, disse ele, cuja apresentação foi baseada em boa parte numa pesquisa sobre indústria 4.0 desenvolvida pelo Observatório da Inovação com a participação de mais de 40 pesquisadores.

No caso do Brasil, Arbix não é otimista. “Claro, nós não somos muito otimistas, porque os dados não são bons, apesar de serem parciais”, disse. “No fundo, o que nós temos que olhar é o desenvolvimento das tecnologias no mundo por causa da integração global, porque quando ocorrem mudanças em determinado país, elas afetam outros países”, acrescentou. O Brasil, segundo ele, pode ser beneficiado por causa de seu ‘atraso’ em termos de tecnologia, de robótica, de automação das empresas, mas corre o risco de ficar na franja deste processo.

Ele ressaltou que o Estado terá um papel importante para abrir novas oportunidades e tentar mitigar os efeitos negativos desta mudança. “Há sempre tempo para se reordenar, de se reinventar”, disse ele, destacando três aspectos essenciais a serem priorizados nas políticas públicas: educação, maior proteção social e mercados competitivos.

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Angela Trabbold – angela@academica.jor.br