Pesquisadora da Poli-USP desenvolve ferramentas para compras sustentáveis na construção civil

Em seu trabalho de mestrado, Patrícia Alves do Nascimento insere critérios de sustentabilidade social, ambiental e econômica nas compras das construtoras.

 

A arquiteta e mestranda da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), Patrícia Alves do Nascimento, desenvolveu, em seu projeto de pós-graduação, ferramentas para aplicação no setor de compras e suprimentos das construtoras para que estas assegurem a adoção da sustentabilidade junto a sua cadeia de fornecedores. A pesquisadora estudou quais são os critérios e práticas sustentáveis, olhando os aspectos econômicos, sociais e ambientais, e criou formulários e documentos que definem os procedimentos para atender a esses critérios. Com isso, as construtoras podem montar um cadastro de fornecedores que sigam normas e práticas de sustentabilidade, assegurando, assim, essa qualidade para seus empreendimentos.

As construtoras, hoje, subcontratam quase toda a obra. Elas não produzem os produtos que utilizam e nem são delas os pedreiros, instaladores da parte hidráulica, elétrica ou de acabamentos, como azulejos, pisos, portas e janelas, por exemplo. “Daí o diferencial dessa pesquisa, que analisa a sustentabilidade do ponto de vista do processo de aquisição, ou seja, olhando o fornecedor” destaca o professor Francisco Ferreira Cardoso, do Departamento de Engenharia de Construção Civil (PCC) da Poli, orientador de Patrícia.

A proposta feita em seu mestrado, “Compras sustentáveis em empresas construtoras de edifícios” se baseia num tripé – sustentabilidade ambiental, social e econômica. “De forma geral, atualmente o setor de compras e suprimentos das construtoras tomam as decisões baseadas na oferta do melhor preço e prazo de entrega. O meu trabalho pode colaborar para uma mudança, ao introduzir o elemento da sustentabilidade no processo, ou seja, propõe a observação de outras características do fornecedor do produto” diz Patrícia.

Hoje, há materiais sustentáveis no mercado, como blocos, madeira e telhas, entre outros, que destacam a sustentabilidade sob a ótica do lado ambiental. Porém, não é apenas o material que garante a sustentabilidade do conjunto, mas a postura do fornecedor em âmbito geral. “Se usar resíduo de pneus, mas trabalhar com mão de obra infantil ou não for uma empresa formalmente constituída, com CNPJ, emissão de nota fiscal etc, não será um fornecedor sustentável, pois ele não atende a requisitos de sustentabilidade social e econômica” exemplifica.

Diminuição dos riscos – Como ‘produto’ de sua pesquisa, Patrícia propõe as ferramentas, uma série de fichas que servem como check list do fornecedor e de avaliação dos atributos de sustentabilidade de certos materiais de construção. Os formulários para cadastro e seleção de fornecedores, que abordam as particularidades de cada material ofertado, pedem informações como, por exemplo, documentação que ateste a legalidade da madeira ou o selo de qualidade do cimento. Outra ferramenta se refere à transparência e governança do fornecedor, em que se analisa questões tais como se já envolveu em escândalos de suborno, cometeu abusos contra a economia etc.

Com a “Declaração de Conduta” o fornecedor garante que vai trabalhar de acordo com o processo sustentável definido pela construtora. Isso passa, inclusive, pelo atendimento de requisitos relacionados à segurança e saúde do trabalhador na obra. “As empresas podem aumentar ou reduzir o número de perguntas e critérios nas fichas, de acordo com suas características de negócio e necessidades” diz ela.

Segundo ela, hoje as empresas não lidam de forma sistêmica com a sustentabilidade, adotando ações pontuais, como a compra de materiais recicláveis, mas deixando de observar os outros aspectos do tripé. Para fazer a pesquisa, ela interrogou 12 profissionais de pequenas, médias e grandes construtoras, responsáveis pela área de compras, e eles apontaram que a maior dificuldade em lidar com as aquisições sustentáveis é a falta de uma política de sustentabilidade que seja apoiada pela alta direção das empresas.

Na base da preocupação com a sustentabilidade das aquisições do setor de construção civil está a questão da corresponsabilidade. “A fiscalização imediata é feita no canteiro de obras da construtora; portanto, ela será acionada primeiro, e não pode alegar desconhecimento em relação ao seu fornecedor” lembra. Dessa forma, além de tornar a empresa mais sustentável, a adoção das ferramentas propostas por Patrícia em seu mestrado reduzem os riscos que as construtoras sofrem por trabalhar com fornecedores irregulares.

O professor Francisco Cardoso destaca que a adoção das ferramentas propostas por Patrícia pode alavancar a inovação na cadeia produtiva da construção civil. “Ao ter essa postura pró-sustentabilidade, as construtoras vão indicar aos fornecedores o que é importante desenvolver para se manterem competitivos no mercado. Isso pode incentivá-los a resolver os gargalos, de modo que voltem a integrar a rede de fornecedores, puxando, assim, a cadeia na direção da inovação em busca de práticas e tecnologias mais sustentáveis” conclui o docente.