Bolsa família não impede situação de insegurança alimentar

FoRC promove palestra de pesquisadora da Universidade Estadual de Ohio sobre impacto do Bolsa Família com ribeirinhos da Amazônia; dados indicam que ingestão de calorias diminuiu e insegurança alimentar aumentou

A Floresta Nacional de Caxiuanã, criada em 1961, foi a primeira das Flonas brasileiras. As Flonas são um tipo de unidade de conserveção de uso sustentável, geridas pela União.Os poucos habitantes remanescentes da debandada promovida quando o local passou a ser Unidade de Conservação (um número que varia entre 350 e 500 pessoas), vivem em grande isolamento, em sete comunidades com poucas casas. Foi ali que, em 2002, a pesquisadora norte-americana Barbara Piperata, da Universidade Estadual de Ohio, desembarcou para um estudo de campo de dois anos sobre amamentação. Entre 2007 e 2008, ao voltar para dividir os dados com os ribeirinhos, Barbara notou uma grande mudança de hábitos, bem como de padrões alimentares, ocasionada, principalmente, pelo acesso ao programa Bolsa Família, do governo federal.
“Eles estavam comendo muito mais arroz, feijão e biscoito. Quando morei com eles, em 2002, havia pouco consumo de importados e 78% do consumo da dieta era de produtos locais: peixe, farinha, frutas, com destaque para o açaí, caça… O que vinha de fora era só açúcar, sal, café e óleo de soja” lembra Barbara. Ela então resolveu realizar um novo levantamento, cujo foco fossem as mudanças ocasionadas pelo acesso ao benefício. E em 2009 voltou ao local. São os dados desse trabalho que ela apresentará em um simpósio, no dia 19, organizado pelo Centro de Pesquisa em Alimentos (FoRC – Food Research Center).
“Fiz um questionário sobre a experiência com o Bolsa Família e apliquei em mais de 70 casas. Quanto recebem, como gastam, quem vai buscar e onde, quanto gastam para buscar o dinheiro etc. Também trabalhei com a EBIA (Escala Brasileira de Insegurança Alimentar). Apliquei ainda um questionário sobre a economia domiciliar, e em 52 dessas casas fiz uma investigação minuciosa da dieta: medi o consumo alimentar diário da mulher e de um filho entre 3 e 16 anos, escolhido aleatoriamente” diz a bióloga, doutora em antropologia.
Os resultados são no mínimo surpreendentes. “Notei, como era de se esperar, um aumento no consumo de carboidratos refinados e carnes gordas. Entretanto, ao contrário do previsto, detectei um declínio de ingestão energética e da adequação da dieta. Ou seja: as pessoas estavam ingerindo menos calorias e tanto a quantidade quanto a variedade de comida eram mais altas no momento do recebimento do benefício, declinando ao longo dos 30 dias do mês. Segundo ela, a maior parte do benefício é usada para compra de alimentos. “Em 2002 as mulheres ingeriam algo próximo a 90% das calorias de que necessitavam, enquanto em 2009 apenas cerca de 68%” afirma Barbara.
Em 2002, segundo Barbara, 100% das casas cultivavam mandioca, principalmente para fabricar farinha, a base da alimentação do ribeirinho amazônico. Em 2009, apenas 63% das casas cultivava o tubérculo. “A mudança mais drástica é que as pessoas estavam parando de fazer roça, muitas casas pararam de fazer farinha, embora a mandioca continue sendo a maior fonte de energia e carboidrato dessas populações” diagnostica Barbara.
Barbara lembra ainda o contexto das mudanças observadas. “A escola local só oferece ensino até o oitavo ano, por isso, muitos jovens estão em Portel, cidade mais próxima, para estudar. Assim, os pais perdem braços para a lavoura. Além disso, a percepção do valor monetário de seu trabalho, adquirida na cidade, faz com que esses jovens, ao voltarem para as comunidades, solicitem dinheiro e presentes para trabalhar na lavoura dos pais e vizinhos. Algo que se fazia em regime de mutirão há alguns anos” observa a pesquisadora.
Os dados de 2009 mostram que a maior mudança foi a fonte dos alimentos. Os ribeirinhos começaram a comer muitas coisas compradas: feijão, arroz, bolacha, charque, carne enlatada, mortadela, frango congelado… Em 2002, quatro das cinco principais fontes de energia (mandioca, açaí, peixe e outros frutos) eram produzidas localmente. Em 2009, três das cinco principais fontes de energia (feijão, arroz, e bolachas) eram compradas. Em 2002, o açaí, uma fruta local, ficava em segundo lugar entre as fontes mais importantes de carboidratos, seguido por açúcar, café e arroz (todos comprados). Em 2009, com exceção da mandioca, todas as fontes de carboidratos (arroz, café, bolachas, e feijão) eram compradas fora das comunidades.
“É visível que a mudança da fonte primordial de alimentos – dos locais para os importados – concorreu para aumentar o padrão de insegurança alimentar nas comunidades” conclui a pesquisadora. “Notei em 2009 uma preocupação excessiva com a estocagem de comida, com a quantidade disponível. Porque comida, agora, é o que vem de fora. Os homens adultos relataram que só quando acabam as provisões trazidas da cidade é que saem para caçar ou pescar.

Serviço: Mini simpósio Transição Nutricional no Brasil.
Data e hora: 19 de novembro, a partir das 8h30.
Local: Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP (Av. Professor Lineu Prestes, 580, bloco 13ª, 1º andar – Cidade Universitária – São Paulo)
Inscrições gratuitas pelo e-mail forc@usp.br