Pesquisa abre caminho para a ‘terceira dentição’

Instituto de Física da USP cria superfície útil para a formaçãode tecido dentário por meio de células-tronco.

Uma parceria entre Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF/USP) pode representar uma etapa crucial no desenvolvimento da chamada “terceira dentição a partir de células-tronco dentárias. A terceira dentição designa diversas iniciativas de regeneração ou substituição dos dentes perdidos ou deteriorados. O estudo caracterizou o tecido celular formado a partir de células-tronco de polpa de dentes humanos em superfícies de filmes de diamante, modificadas com oxigênio e hidrogênio. As superfícies foram preparadas no Laboratório de Filmes Finos (LFF) do IF/USP, coordenado pela professora Maria Cecília Salvadori.

“A ideia geral da engenharia tecidual, especificamente na área dentária, seria conseguir produzir a terceira dentição utilizando células-tronco que, por meio de diferenciação, formassem dentes. Mas é preciso cultivar essas células em algum ambiente propício. Neste estudo, utilizamos filmes de diamante. Por meio de litografia por feixe de elétrons, selecionamos áreas adjacentes e as modificamos com a adição de hidrogênio e oxigênio. As células removidas da polpa do dente foram cultivadas sobre essa superfície modificada” explica Maria Cecília, que trabalhou junto com Sílvio Eduardo Duailibi e Mônica Talarico Duailibi, ambos da Unifesp.

As células foram cultivadas nesse substrato durante 28 dias e depois removidas, para a análise da superfície. “A análise mostrou que a célula excretou a matriz extracelular somente nas regiões que continham oxigênio. Além disso, o padrão dos arranjos celulares sobre a superfície sugere que as células estavam se organizando de modo a buscar as regiões com oxigênio. Não é ainda muito claro porque isso acontece. Mas é algo que pode levar, por exemplo, à criação de estruturas para o desenvolvimento de matrizes celulares específicas, além de facilitar o projeto e o desenho da cultura celular desejada” adianta Maria Cecília.

Os filmes nanocristalinos de diamante (NCD, na sigla em inglês) atraíram a atenção de pesquisadores de diversas áreas nos últimos anos porque têm propriedades únicas e excepcionais. Neste caso, as descobertas do estudo conjunto entre as duas instituições indicam que as superfícies de diamante modificadas com oxigênio podem ser úteis para a formação de tecido dental.

“Os resultados mostram que a célula ‘escolheu’ desenvolver matriz extracelular nas áreas modificadas com oxigênio. Isso é uma sinalização, e um começo importantíssimo. Expor as células-tronco a dadas condições e receber como sinal um certo comportamento é fundamental. Sem isso não se chega lá. É um estudo com uma seta muito bem direcionada para um futuro no qual possivelmente possamos ter uma terceira dentição a partir de células-tronco do próprio paciente” resume a física.

Assim, para promover a regeneração dentária nos pacientes, o cirurgião dentista contará com mais uma alternativa: o implante biológico. Consiste na reorganização em 3D de células viáveis, semeadas em um arcabouço de biomaterial – e este conjunto, implantado no local. Segundo estimam os especialistas, dentro de mais ou menos uma década será possível regenerar o tecido dentário ou até mesmo o dente inteiro por meio de processos como este.